Como plantar uma moeda?
Couve é o token social da Paisagem, lançamos em 2024, e preciso começar por uma constatação simples: ela não pegou. Escrevo este texto para pensar em voz alta sobre um experimento - os conceitos que o fizeram nascer, o propósito que o moveu e as dificuldades que encontrou.
A Couve nasceu de uma inquietação antiga: dizemos que um coletivo de artistas “não tem dinheiro” como quem constata uma falta, mas basta uma tarde dentro dele para ver o quanto circula - favores, indicações, um equipamento emprestado, uma tradução feita de graça, horas de trabalho que ninguém fatura. A comunidade está cheia de valor. O que lhe falta é uma linguagem para nomeá-lo. Valor e preço não são a mesma coisa, e muito do que sustenta um espaço criativo é da ordem do valor sem preço: o cuidado de quem acolhe, a presença de quem aparece, o tempo dado sem contrapartida.
Essa intuição tem uma referência por trás que não é uma utopia distante. O pensador mexicano Gustavo Esteva, companheiro de caminho dos zapatistas e amigo de Ivan Illich, dedicou a vida a pensar que os comuns não são como uma coisa que se possui, mas sim uma atividade: um modo de as pessoas se relacionarem entre si e com o mundo, fora da tutela do Estado e da medida do mercado. Em Grassroots Postmodernism (1998), ele e Madhu Suri Prakash defendem que é no enraizamento local, nas formas comunitárias de decidir a própria vida, que se abre uma alternativa real à lógica global. Fazer comum, para Esteva, é o começo de outra economia, tecida de vínculo e não de concorrência. Foi nessa mesma família de gestos, muito antes de qualquer criptomoeda, que nasceu a experiência que mais me inspira: em 1998, no Conjunto Palmeiras, periferia de Fortaleza, o Banco Palmas criou a Moeda Palmas1, uma moeda social que circula apenas dentro do bairro, trocando ali a riqueza peculiar que de outro modo dispersaria para os grandes centros e diluiria seu potencial. Uma comunidade emitindo o próprio reconhecimento, prosperando a partir de dentro.
A Couve quis ser um comum assim, para fomentar e reconhecer quem colabora de todas as formas com a Paisagem. Foi desenhada cada escolha com cuidado. Ela não se troca por dinheiro - nenhum euro a compra, nenhum euro a resgata, e com isso fechamos a porta à especulação já na fundação, porque sem cotação não há o que especular. E não substitui, nem deveria, o pagamento de quem faz um evento acontecer: a equipe técnica, a produção, o trabalho profissional têm preço e são pagos em dinheiro. A Couve vive em outra camada, a do valor sem preço que nenhum recibo alcança. Ela não mede quanto alguém pagou, mede quanto alguém esteve. Ganha-se pelo programa Cultivo: participar de um evento, divulgar ou criar conteúdo, organizar um encontro, contribuir com os projetos da comunidade. O que ela devolve é voz: quem tem Couve vota nas propostas, sugere caminhos, ajuda a decidir o que a Paisagem será. Na intenção, tudo se encaixa. Uma moeda da reciprocidade, uma governança partilhada, um nome afetuoso tirado da verdura mais comum das nossas mesas.
E então veio um silêncio. Preciso ser honesta sobre ele, porque fingir que não houve seria trair o próprio espírito do projeto. A adesão foi baixa (como já suspeitava, no fundo). Fico com as perguntas, e ofereço-as em vez de tentar dar respostas prontas. Terá sido o preconceito? A palavra blockchain arrasta hoje um peso - especulação, golpe, bolha... e talvez esse peso tenha contaminado até um uso que nasceu para ser o seu oposto, de modo que quem poderia amar a Couve recuou diante do nome da tecnologia que a sustenta. Terá sido a dificuldade de compreender? Um token que não vale dinheiro e serve para votar é uma ideia que exige tempo para assentar, e tempo é o que mais falta a todos. Ou terá sido, simplesmente, atrito demais no caminho da entrada?
Ivan Illich deu nome a esse último problema muito antes de ele existir na forma que hoje conhecemos. Em Tools for Conviviality (1973), distinguiu as ferramentas conviviais - aquelas que qualquer pessoa pode usar, ajustar e consertar por conta própria, ampliando a sua autonomia - das que, ao ultrapassarem um certo limiar de complexidade, passam a exigir mediação especializada e acabam por desempoderar quem deveriam servir2. E aqui preciso fazer justiça à tecnologia escolhida para o token, antes de somente a questionar. No seu fundamento, a blockchain carrega um princípio profundamente comunitário: a descentralização, um registro que não pertence a nenhum dono nem a nenhum centro, e a transparência, um livro comum que qualquer um pode verificar. Uma tecnologia sem centro carrega, no papel, a promessa de uma mediação horizontal, sem uma única fonte que se imponha - algo próximo da Relação de que fala Édouard Glissant e do fazer comum de Esteva. Foi essa promessa que me atraiu: pôr a ferramenta a favor do vínculo, e não do lucro.
Reconheço, porém, a ironia. A mesma ideia que desenhou a Couve - os comuns de Esteva, as ferramentas conviviais de Illich - é a que me daria o aviso mais crítico. Um princípio descentralizador não basta se, na mão de quem chega, a ferramenta ainda exige o perito. Por mais que a blockchain prometa autonomia, o gesto concreto de entrar - criar uma carteira, guardar uma chave, entender um saldo que não é dinheiro - ainda pede uma série de mediações técnicas estranhas ao cotidiano da maioria de nós. A Couve cruzou, sem querermos, o limiar que refere Illich: nasceu de um princípio convivial e chegou às pessoas como uma ferramenta que pedia perícia. O problema, entendo agora, não morava na ideia nem no fundamento da tecnologia. Morava na distância entre o seu princípio e a sua porta de entrada.
E é aqui que Glissant me ajuda mais uma vez a corrigir a rota. Partilhar o saber - ensinar uns aos outros a criar a carteira, a guardar a chave - é necessário e alivia a barreira, mas ainda a pressupõe: continua havendo um degrau, só que subido em companhia. A horizontalidade virá quando a própria ferramenta se tornar intuitiva, acessível a qualquer pessoa sem exigir aprendizado prévio, de modo que o mediador especializado deixe de ter função - que é, no fundo, o que Illich sempre entendeu por ferramenta convivial. E esse é um trabalho aberto, disponível a quem quiser colaborar: dissolver a barreira na origem, com inovação, no próprio desenho da ferramenta. Só então a rede seria de fato permeada, atravessada de mão em mão - como o próprio valor que a Couve quer fazer circular.
Prefiro pensar nisto como quem examina um experimento, porque foi disso que se tratou desde o início: uma hipótese posta à prova, não uma aposta a ganhar ou perder. A Couve não morreu, é um experimento adormecido que pode ser retomado. Ando à procura de formas de facilitar o acesso, de fazer com que ganhar e usar uma Couve seja tão simples quanto pegar uma folha na horta, sem carteira, sem chave, sem medo. Confesso que ainda não sei se conseguirei, nem sequer se devo. Há dias em que penso que a ideia estava à frente das suas condições, e há dias em que penso que são as condições que precisam de nós para mudar. Essa dúvida, deixo-a aberta de propósito, porque ela é o assunto verdadeiro deste texto.
O nome, ao menos, continua coerente. Couve é planta de fartura e de partilha, cresce o ano inteiro, rebrota a cada folha colhida, alimenta sem encarecer. Uma moeda com essa natureza rende mais quanto mais se reparte. Se a Couve ainda não frutificou, talvez seja porque toda semente tem o seu tempo, e o tempo de uma comunidade não se decreta. Sigo regando. E deixo o convite, que é o mesmo de sempre e o mais sincero que tenho: vem pensar isto comigo.
Referências
Gustavo Esteva e Madhu Suri Prakash, Grassroots Postmodernism: Remaking the Soil of Cultures (1998); Édouard Glissant, Poétique de la Relation (1990); Ivan Illich, Tools for Conviviality (1973).
Notas
1 A Moeda Palma foi criada em 1998 pelo Banco Palmas, banco comunitário do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. Moeda social circulante, restrita ao bairro, tornou-se referência internacional em finanças solidárias por manter a riqueza em circulação entre vizinhos em vez de deixá-la escoar para os grandes centros.
2 Illich desenvolve a noção de ferramenta convivial em Tools for Conviviality (1973): há um limiar de escala e de complexidade para além do qual um instrumento deixa de ampliar a autonomia de quem o usa e passa a exigir a mediação de peritos, monopolizando o acesso e devolvendo as pessoas à dependência. A convivialidade é, para ele, a capacidade de usar uma ferramenta sem precisar de intermediários.