Um enxame de abelhas chega fazendo barulho. Move-se em conjunto e se recusa a passar despercebido. Foi assim que imaginei a Feira Paisagem desde o primeiro dia, em Vinhedo, e foi assim que ela atravessou o oceano comigo até Portugal, quando cheguei carregada de publicações de artistas e editoras brasileiras nas malas. Um ano depois, pisei em Guimarães, onde vim recomeçar a vida quase que por acaso, depois de sofrer violência doméstica e de meses vivendo numa casa-abrigo. Foi um processo turbulento e incerto, que fez um ruído muito diferente do que eu esperava, porém, me instigou a perguntar: a quem pertence o devir de um lugar, e quem tem o direito de imaginá-lo? Como um enxame se adapta ao seu novo lugar? A Paisagem e o Futuro em Rede são os terrenos onde busco responder a esses anseios na prática, permeando espaços junto de quem se sente de fora.

Afinal, há fronteiras que separam países e há fronteiras que separam pessoas dentro de uma mesma rua. Achille Mbembe escreveu que a fronteira deixou de ser apenas a linha entre dois países e se tornou um mecanismo que decide quem tem o direito de circular pelo mundo e quem fica condenado à imobilidade. Uma fronteira que não pára no posto de controle, mas acompanha o corpo do estrangeiro para dentro, refazendo-se a cada passo, em cada porta que não se abre. Cheguei sem conhecer ninguém e aprendi rápido o que significa procurar espaço no meio cultural português - marcado pela escassez de recursos e pela precariedade laboral, dificuldades que se multiplicam para o forasteiro. Foi a partir dessa margem que percebi que os projetos culturais que empreendo seriam ferramentas de resistência neste território, como integrante da comunidade terrestre 1.

O propósito de resistência está na gênese da Paisagem, que nasceu em 2016, em Vinhedo, cidade do interior de São Paulo acometida pela especulação imobiliária predatória. Fundou-se como uma feira de arte gráfica e publicações independentes que se tornou, também, uma plataforma crítica da realidade urbana e cultural. Um enxame que ocupa o espaço e faz barulho; um evento que convoca artistas, editoras e públicos diversos para que algo novo surja do encontro - aquilo que Édouard Glissant chama de crioulização, o terceiro inesperado que nasce quando culturas se relacionam sem hierarquia. Nesse sentido, a diversidade sempre foi o seu método. Na busca por reunir origens, técnicas e gerações que pouco se cruzam, a Paisagem propõe transformar a fronteira numa zona de troca, onde a diferença inspira a criação em vez da exclusão. Desde 2022 o projeto acontece em Guimarães, onde já refletiu sobre a necessidade de comunidades plurais e sobre como as novas tecnologias podem contribuir para a coletividade. Este ano o enxame se instalou em seu ambiente de vocação e ocupou as ruas do Bairro C em ações de intervenção urbana sob o tema dos territórios de afeto.

Se o enxame é o fenômeno da superfície, o trabalho que o sustenta acontece por dentro, mais lentamente. Ao me entender como parte deste lugar, a atitude mais razoável foi fundar a associação Minhoca Utópica, com um nome que carrega um programa: trabalhar a terra de forma discreta e paciente, arejando o solo e decompondo o que é ignorado, criando fertilidade para que a diversidade cresça. Neste mesmo solo trabalhado, estende-se uma grande rede - a do micélio - cujos filamentos ligam as raízes de uma floresta inteira e por onde as árvores trocam água, alimento e avisos. Uma floresta se organiza graças a essa rede subterrânea, sem centro e sem dono, mas está longe de ser um idílio. Donna Haraway descreve a natureza como simbiose, um fazer-com, um sympoiesis 2  em que conviver implica permanecer no problema em vez de fugir dele. Numa floresta, a diversidade não evita o conflito, transforma-o em campo fértil - é essa imagem que orienta os projetos da associação.

É a técnica do micélio que o Futuro em Rede, projeto inaugural da associação, quer explorar. Nasceu com o apoio do programa Carbono Zero Cidades Infinitas e tem sede no Bairro C, região de Guimarães com vocação cultural emergente. Desde o início deste ano, totens solares com nós de rede mesh fazem perguntas provocativas a quem passa: “Como imagina este lugar daqui a cinquenta anos?” “O que mudaria se tivesse uma varinha mágica?” Mais de mil pessoas já responderam, boa parte com menos de dezoito anos, pedindo quase sempre o mesmo: mais árvores, mais encontros, menos carros e mais transportes públicos. Aqui, a imaginação é o método. Recolher desejos diversos sobre o futuro e agir no presente inverte a lógica da previsão: em vez de prolongar as tendências de hoje, parte-se de um futuro desejado e caminha-se de volta até as decisões que o presente precisa tomar para tal, numa abordagem conhecida como backcasting. E há um gesto concreto em que esses desejos deixam de ser apenas resposta. O arquivo aberto que cresce a cada dia, somado aos conteúdos dos workshops de design fiction, vai dar forma ao Manifesto para o Futuro, um zine a ser lançado em setembro, uma voz coletiva tornada documento. Essa rede é o que Milton Santos chamaria de horizontalidade: ao contrário das verticalidades - os fluxos do capital e das plataformas que atravessam o território sem habitá-lo - ela é feita do corpo a corpo do cotidiano e devolve aos moradores a autoria sobre o futuro do próprio lugar.

A floresta de que falei não é um idílio, e o Bairro C também não. Aqui o conflito surge sem disfarces. Este território de passado fabril e operário, hoje em plena transformação urbana, tornou-se o laboratório dos projetos que desenvolvemos. A política pública abriu espaço para a experimentação, mas o que ali se cria provoca reações diversas. Claire Bishop alertou para o risco de a arte participativa se transformar num consenso fácil, sobretudo num ambiente de escassez de recursos, onde o pensamento crítico pode custar as poucas portas que se mantêm abertas. Contra esse risco, manter visíveis e audíveis as tensões locais é o que impede que a arte se reduza à mera decoração.

Essa resistência real, uma tensão velada, feita de intolerância e da recusa de uma suposta invasão ameaçadora, tem sido agravada pela ascensão de ideologias extremistas. Num episódio impossível de ignorar, nesta última edição da Paisagem, sob o tema “Em territórios de afeto não há fronteiras”, uma obra de arte urbana que homenageava crianças palestinas, foi vandalizada poucos dias após a sua instalação. O episódio doeu. Não tomo a fricção como prova automática de mérito, mas ali se tocava num limite real, e convém nomeá-lo.

Permeável não significa viver sem fronteira alguma. A intolerância não pode pedir lugar como se fosse apenas mais uma diferença a acolher; ela é a própria fronteira, o gesto de erguer muros e escolher quem fica de fora. Dissolver fronteiras é, justamente, anular esse gesto. A permeabilidade tem uma recusa, uma só: a daqueles que apenas procuram obstruir as trocas, impedir os fluxos, construir muros.

bell hooks falava do prazer como ato político, da alegria do encontro e do aprender junto como modo de resistir à formatação social. Ailton Krenak lembra que imaginar é uma das últimas formas de resistência, e que sonhar junto já é começar a transformar. É essa a aposta da Paisagem e do Futuro em Rede: abrir um espaço permeável, atravessado por trocas e aprendizados mútuos, na contramão de uma época que prefere erguer barreiras. A diversidade, no solo de uma floresta como na vida de uma cidade, é a condição daquilo que ainda está por vir.

Um enxame não pede licença para existir, o micélio não reconhece divisões debaixo da terra, e nenhum dos dois guarda algo só para si. Foi essa a possibilidade que encontrei ao chegar, mas ela nunca foi só minha: o devir de um lugar pertence a todos que se dispõem a imaginá-lo em conjunto, inclusive a quem veio de fora e sempre faz parte. Imaginar juntos o que este lugar pode ser já é, de algum modo, começar a construí-lo.

Referências

Claire Bishop, Artificial Hells (2012); Édouard Glissant, Poética da Relação (1990); Donna Haraway, Staying with the Trouble (2016); bell hooks, Ensinando a transgredir (1994); Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (2019); Achille Mbembe, Necropolítica (2018) e Brutalismo (2021); Milton Santos, A Natureza do Espaço (1996).

Notas

1  No seu pensamento mais recente, Mbembe sustenta que, diante da crise ecológica planetária e da violência das fronteiras, a única comunidade que de fato importa é a comunidade terrestre: o conjunto de todos os habitantes da Terra, humanos e não humanos, que partilham um só mundo finito e habitável.

2  Sympoiesis vem do grego e significa “fazer-junto” ou “produzir-com”. Donna Haraway o desenvolve em Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene (2016) para afirmar que nada se faz sozinho. Como ela escreve, “sympoiesis é uma palavra para mundificar-em-companhia”. O conceito está ligado ao seu “permanecer no problema” (staying with the trouble): viver e morrer juntos num planeta danificado, criar laços (making kin) e assumir que a sobrevivência é sempre coletiva e multiespécie.